Uma noite no Complexo da Maré: o que eu vi e senti.

22/08/2017 0 Por Natália Alves

 

Gostaria de deixar claro que essa publicação não é uma recomendação turística, tampouco uma dica de programação na cidade, é o relato de uma experiência no “Rio invisível”, aquele que todos sabem que existem, mas não veem e não notam.

A Maré é um enorme complexo em plena Avenida Brasil e abriga centenas de sub-bairros, conjuntos habitacionais e agrupamentos de favela no seu interior. Quem passa somente por fora não consegue ter a dimensão real do mundo que tem lá dentro. O comércio é fervilhante e vai desde loja de roupa a bares, restaurantes e academia. Paralela a essa rotina aparentemente normal, os fuzis, as pistolas e as metralhadoras desfilam pelas ruas enquanto crianças jogam bola e casais curtem um forró.

Era cerca de 19h quando desci do ônibus 324 (Centro – Ilha) em frente ao supermercado da passarela nove na Av. Brasil. Um amigo que trabalha dentro de uma ONG na comunidade me chamou pra tomar um chopp e conhecer um pouco mais da realidade de uma comunidade aonde a UPP- Unidade de Polícia Pacificadora- não chegou. A UPP, que teve seus dias gloriosos na gestão Paes (2008 – 2016) e hoje enfrenta dificuldades, é um programa de segurança pública que tem como objetivo a retomada permanente de comunidades dominadas pelo tráfico, assim como a garantia da proximidade do Estado com a população.

 

 

Eu estava tensa, o cenário não era nem de perto parecido com outras favelas que já visitei. Crianças jogavam bola enquanto a 50 metros um rapaz franzino vigiava uma porta com um rádio no cós da bermuda. Não me obriguei a olhar as armas, não consegui. Tentei olhar para os rostos e identificar suas idades, seus sonhos e medos, como se isso fosse remotamente possível. Cara a cara com a situação é impossível romanceá-la. Aliás, essa é uma situação que não deve, nunca, em hipótese alguma, ser encarada como poética ou lúdica.

Na altura da Nova Holanda passamos pelos usuários de crack e essa foi uma das cenas mais tristes que já vi. Incapazes de reconhecerem um rosto e até de apresentarem qualquer vestígio perigoso, o retrato da morte parecia pairar sobre aquela região. Sequer um poste iluminado havia sobre eles. Andando mais um pouco, lia-se em um dos muros: “vai morrer polícia” e eu, que nunca fui uma defensora da Polícia Militar, só conseguia pensar no cenário de caos e guerra no qual eles precisam trabalhar. Essa mensagem sangrou meu coração, porque “vai morrer polícia”, mas vai morrer inocente, crianças e mulheres também. Essa, definitivamente, é uma batalha que ninguém sai ganhando.

 

 

Depois de nos perder pelas vielas e eu quase ter entrado em pânico, chegamos ao bar. A chopperia Las Vegas fica na parte mais movimentada da favela, no Parque União, e o clima ali era completamente outro. Apesar de ter demorado um pouco para que eu relaxasse depois da aventura em ter se perdido, pedimos uma porção de bolinho de bacalhau que estava deliciosa. O atendimento também foi ótimo. Das caixas de som gritavam alto Wesley Safadão, Luan Santana, Anitta e toda sorte de forró e funk possível. A trilha sonora também somou pontos na descontração. Quando olhamos a hora, a noite já ia esticando. Não dava para entrar madrugada adentro, pois aqui as atividades encerram cedo. Com traficantes como “guardiões”, e isso pode ser tranquilizante ou não dependendo do ponto de vista, a noite acaba por volta das 23h.

Para quem não é habituado a essa rotina, a sensação ao voltar é de ter tirado um elefante das costas. Encerramos a noite na Lapa e eu não conseguia parar de tagarelar sobre a experiência que havia tido. Só conseguia pensar em como essa realidade é tão assustadora para mim, mas tão natural pra quem precisa viver nela. Há um mundo paralelo acontecendo ali e vidas que importam. E isso não pode passar despercebido por ninguém. Foi, definitivamente, uma noite para se guardar na memória.

 

Fotoshttp://www.rataodiniz.46graus.com

 

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