Kalango: comida do sertão na Praça da Bandeira

20/04/2020 0 Por Natália Alves
Bar Kalango na Praça da Bandeira

A fachada não é das mais sofisticadas, e é exatamente na simplicidade e sutileza de detalhes, além da comida boa, claro, que o Bar Kalango, na Praça Bandeira, na zona norte do Rio, virou um queridinho meu. Não só por ser o melhor lugar de comida sertaneja que temos, mas também pela afetuosidade escondida nos detalhes da sutil decoração (que vai desde aos cartazes nas paredes até as louças de mesa rústicas). 

Sob o comando do doce Emerson Pedrosa, ex Roberta Sudbrack, e da queridinha dos amantes de gastronomia do Rio, Kátia Barbosa (Aconchego Carioca), o bar, que leva o nome da espécie de lagarto que no cenário miserável do país serviu de alimento para muitos sertanejos no sertão nordestino e no interior de Minas Gerais, chegou quase como uma homenagem aos heroicos trabalhadores brasileiros. 

Ah, além disso, a trilha sonora da casa é simplesmente uma delícia com muito xote, xaxado e forró. Dá vontade de sair dançando de lá. Feita por Emerson, ela é tão gostosa que eles disponibilizaram o link no Spotify para quem quiser. Clique aqui para ouvir. 

No Kalango, com k, a história é contada a partir de pratos elaborados com excelência por essa turma que transformou suas histórias de luta em poesia. A autenticidade é tanta que, para compor o cardápio, os cozinheiros ouviram a pesquisadora Ana Rita Suassuna, autora de Gastronomia Sertaneja: Receitas Que Contam Histórias. E que história! Emerson, filho de pais cearenses, e Kátia, filha de paraibanos, entregam para o público preciosidades como galinhada, paçoca de carne de sol, arroz de leite, picadinho de músculo na jurubeba, feijão-de-corda, baião de dois, frango com pequi, rabada com agrião, macaxeira e muita abóbora, jiló, maxixe e quiabo. Se você torcia o nariz para algum desses ingredientes, como essa que vos fala, que comia de tudo, EXCETO abóbora, jiló, maxixe e quiabo – tudo que eles possuem aos montes nos pratos – prepare-se para ter todo seu preconceito gastronômico cair por terra.

Salada de favas com legumes – muito bem temperada e deliciosa!

Costelinha a passarinho com teriaky de rapadura – incrível!

Durante a semana, os (bem servidos) pratos executivos – que mudam todos os dias – saem a módicos R$25,00 e finais de semana de R$35,00 a R$42,00 (preços fixos). Fomos na generosa galinhada e na panelinha de fradinho com bacon, maxixe, linguiça, quiabo, abóbora, arroz e farofa, dos quais guardamos recordações afetuosas e o gosto na boca até hoje. Havia tempo que não comíamos uma comida tão honesta, cheia de sabor e por um valor tão justo. Deu um banho nas comidas da Feira de São Cristóvão, outro reduto de comida nordestina na cidade, do qual inclusive gosto muito, mas perto do Kalango, ficou “comercial” demais. 

Panela de fradinho acompanha arroz e farofa (serve bem 2 pessoas)

Galinhada do Bar Kalango

E se os pratos já são extremamente saborosos e bem servidos, as sobremesas também não ficam para trás. A rabanada de broa de milho com creme de tapioca, doce de leite e flor de sal (R$15,00) e a queijadinha (R$12,00) com calda de leite e café, acompanhados de café coado na mesa do Sítio do Ipê (R$5,00) trazem o aconchego da roça para a mesa. Melhores do que um abraço quente em um dia frio. Inclusive, para muitos, essa é considerada a melhor rabanada do Rio de Janeiro

Fala a verdade, essa foto abaixo é pura memória e cozinha de afeto, né?

Mesa de sobremesas e café coado na mesa/Bar Kalango

Se você conseguir levar esses fatores em consideração, vai relevar o atendimento difícil e uma ou outra mosca, que só vai incomodar os chatos do Sudeste, na verdade, mas que, realmente, são os únicos pontos em que a casa ainda precisa melhorar. Nada que tire a essência, a brasilidade e a delícia que é estar no Bar Kalango. 

Serviço

Rua São Valentim, 513 – Praça da Bandeira – Rio de Janeiro

Dias e horários de funcionamento: quarta a domingo de 12h às 17h

Delivery próprio

Telefone: (21) 2502-8218

Bar Kalango

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